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Tag: Mercado de Trabalho

Hoje participei de um processo seletivo que me ajudou a entender o porque do mercado de TI estar tão difícil.

Só para situar:  posso afirmar que meu currículo é bom, tenho 12 anos em experiência de TI, sendo 5 anos de experiência exclusiva em Gestão de Projetos, alguns acima dos R$1mi (o que me encaixa como Sênior no assunto) e ainda tenho a certificação PMP (que é uma certificação reconhecidamente difícil de ser conseguida), além de ter pós-graduação na área, estar cursando um MBA e me certificando ITIL, além de conhecer RUP, FDD, Scrum e CMMI. Tá, não sou o Bill Gates, mas meu currículo esta legal.

Mas desde que comecei a procurar um novo emprego tenho estranhado o fato de não estar sendo chamado para entrevistas. Ok, sou feio, posso ficar nervoso em entrevistas, a pessoa pode não ir com minha cara… mas isso só seria possível se me chamassem para a entrevista.

  • Primeira ação que tomei, verifiquei se meus contatos estavam corretos, afinal posso ter errado o número de celular… mas estava ok.
  • Segunda ação, reescrevi todo meu currículo, sei lá, de repente não estava agradando a escrita… deu na mesma.
  • Terceira ação, enviei para alguns amigos analisarem e me apontarem os possíveis erros, não mudaram uma linha sequer.
  • Quarta ação, rezar ou tentar fazer pacto com o demônio.

Talvez tenha sido a quarta ação, não sei ao certo se foi a reza ou o pacto (quando eu morrer eu descubro), mas nesta semana participei de 2 processos, ainda em andamento, mas o de hoje me esclareceu tudo.

Fui para São Paulo e na empresa me juntei a mais 5 candidatos numa sala. Não foi dinâmica em grupo, mas sim uma forma de otimizar o tempo de todos. Preenchemos formulários, resolvemos cases (tudo individual) e por fim nos apresentamos, o que achei muito interessante, pois me permitiu conhecer meus concorrentes.

Antes de falar da apresentação, vou citar o que a recrutadora disse: “A vaga ficou anunciada por 24 horas em um site apenas, neste periodo recebemos certa de 500 currículos, dos que analisamos selecionamos alguns para o diretor da área e ele selecionou vocês 6. Vocês já deram um grande avanço no processo”.

Imediatamente lembrei da seguinte piada:

“A recrutadora do RH entra na sala do diretor carregando uma caixa de papéis, e diz:
- Senhor João, trouxe aqui os currículos para a vaga que o senhor pediu.

O diretor olha para a quantidade de papel e diz:
- Tudo isso?
Ela responde:
- Sim, recebemos certa de 500 curriculos para a vaga!
Ele levanta de sua mesa, pega os currículos, joga para cima no melhor estilo Xou Da Xuxa sorteando cartas e recolhe apenas os que cairam em cima de sua mesa.

A recrutadora de RH olhando a cena, espantada, comenta:
- Senhor João, o senhor não vai analisar os que cairam no chão?
Ele responde:
- Não quero contratar azarados.”

Isso que esta acontecendo! Ela não chegou a ler os 500 curriculos! Culpa dela? Claro que não, foram 500 curriculos para apenas uma vaga de Gerente de Projeto, sendo que só na área de TI existem mais 4 vagas abertas para analistas e programadores, numa empresa onde existem 12500 funcionários! Imagina a quantidade de curriculos que ela não recebeu para tudo quanto é vaga em aberto?

Então estou sendo jogado na sorte, isso é claro. Mas o pior foi na apresentação:

Tirando eu sobra mais 5. Destes 5:

  • 1 não tinha nenhuma graduação
  • 4 não tinha nenhuma experiência como gerente de projeto
  • 5 não tinham PMP
  • 1 não sabia o que era PMP*
  • 1 não sabia o significado de “expectativa”
  • 1 levou um currículo com foto…

* Um detalhe a ser explicado para os leigos. Um candidato a gerente de projeto que não sabe o que é PMP, é como um Padre que não sabe o que é uma Bíblia.

Ou seja, dos 5 eu só considero mais um como meu concorrente, os outros 4 não eram gerentes de projetos e sim tinham desejo de ser gerentes de projeto. Agora eu fico imaginando os outros 494 currículos…

Não sei se estou conseguindo explicitar minha preocupação, mas o ponto é que a galera esta mandando currículos para tudo, sem critério! Na boa, 500 curriculos para gerente de projeto é muita coisa! E pelo que vi nas apresentações, o preparo para a função é mínima! Os profissinais estão escolhendo a função pelo salário e não pela qualificação. Estão poluindo o mercado!

Ah, o salário…

O que acontece quando uma pessoa ganha X e sabe determinada função ganha normalmente 2X? Ela vai querer essa vaga e se não tiver qualificação ela aceita trabalhar nesta função por 1,5X. Na prática? Dos dois processos que tenho em andamento: o de Campinas paga 62% a mais do que o de São Paulo. Talvez Campinas não esteja “infectada” por este tipo de candidatos.

Me preocupa o fator da “sorte” envolvida. Sorte é um fator que não tem me acompanhado ultimamente…

Ah, mesmo assim eu não creio que serei chamado para a vaga de SP, ainda tem uma entrevista e parece que morar em Campinas pode ser um problema. E para a vaga de Campinas falta apenas uma entrevista com um americano por telefone, ou seja, acho que também não rola… Apesar do meu inglês ser avançado, para falar tenho certa dificuldade, falta de prática mesmo… vamos ver…

Nunca obtive uma qualificação de forma tão rápida. Hoje sou, além de Analista de Sistemas, Jornalista!

O lado bom é que neste momento isso vai me ajudar muito, afinal estou procurando emprego, e colocar “Jornalista” pegaria muito bem, além de ampliar as possíveis vagas!

O lado ruim é que todo mundo é Analista de Sistemas e Jornalista…

Pois é, ontem saiu mais essa do nosso governo, Jornalista não precisa mais de diploma.

Sinto isso na pele. Sou formado em Análise de Sistemas, e para quem não sabe também não precisa de diploma para exercer a profissão. Problemas? Vários! De cara a concorrência no mercado aumenta muito, afinal qualquer imbecil consegue programar (escrever então…) hoje em dia, basta comprar um livro qualquer. Outra coisa, que tenho experimentado ao longos dos anos, a qualidade do trabalho em geral fica muito ruim, afetando a imagem de toda uma classe.

Já participei de projetos que a qualidade do trabalho era assustadora.

Ah, claro, o valor salarial cai mundo, afinal estamos cheios de concorrentes no mercado.

Tudo isso é lamentável.

Claro, existem casos em que formados são um lixo e não-formados dão show, mas isso não é comum.

“Mas na faculdade não se aprende nada”. Esse é o argumento mais imbecil dado. Ou quem fala isso não frequentou uma faculdade ou fez uma faculdade qualquer de qualidade duvidosa (muito comum nos dias de hoje).

E se esse argumento é realmente válido, porque não tiramos a obrigatoriedade de diplomas para todas as profissões? Seria lindo não? Acabariamos com o problema de saúde da noite pro dia, qualquer um poderia ser médico. Ah, mas médico não pode, lida com vidas… Tá, quero ver se um médico, durante uma cirurgia, descobrir que, sei lá, seu sistema imprimiu a ficha errada do seu paciente. (exemplo radical detectado, mas pense sobre isso…)

Você acha isso impossível de acontecer? Já participei de projetos em um Banco Federal em que o CPMF era calculado de forma incorreta. Esse erro estava no sistema desde o inicio do CPMF, e tirava mais dinheiro do correntista do que devia. Esse erro foi de um “não-formado”? Não dá para saber, mas como o mercado de TI é um lixo onde a maioria não é formada na área, a chance de ser de um “não-formado” é maior do que ser de um formado.

Soluções para os “lesados”? Pós-graduações, MBAs, Idiomas fluentes… tentar de alguma forma se diferenciar dos “profissionais-piratas”…

Ah, mas você tem que se destacar no mercado pela sua capacidade e blablabla. Vou dar um exemplo, estou procurando vagas de Gerente de Projetos de TI, cada uma dessas vagas recebem em torno de 250 curriculos... você acha que o recrutador lê todos? Imaginem vagas mais operacionais? Chuto mais de 1.000 currículos por vaga. Esses dados peguei em um dos sites que assinei para procurar vagas….

Pode parecer radical meu pensamento, mas podem escrever, principalmente os Jornalistas/Estudantes de Jornalismo, a coisa vai piorar para vocês em alguns anos.

E se eu já não engulia tudo o que lia/assistia nos noticiários, agora então…..

(Me desculpem se ofendi alguma pessoa/colega que leu isso, mas pare e pense o quanto a concorrência no mercado torna-se desleal. O quanto é prejudicial.)